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Origens Voltar às origens, no caso de Leo Gandelman, é antes de mais nada lembrar daquelas manhãs de sábado e domingo nas quais, ainda menino, era acordado pela música que vinha da sala, onde a mãe tocava com amigos ou trabalhava com seus alunos; o pai, o maestro Heinrich Gandelman, também ajudava a fazer da música presença constante. E não por acaso Leo descreve os momentos musicais como os mais especiais de sua infância. Momentos dos quais não participava apenas como ouvinte. O piano ele estudoudesde pequeno, mas não só. Com a flauta doce, foi solista da Sinfônica Brasileira aos 15 anos – e, em um conjunto dedicado à música barroca, tocou até viola da gamba. João Luiz Sampaio
Sabe Você Um DVD que reúne alguns dos maiores intérpretes da MPB, com um repertório só de clássicos da nossa música, com arranjos que valorizam os músicos que a interpretam sob o signo de um gênero que fala direto ao coração: a balada. Parece muito, e é mesmo. Sabe Você: Leo Gandelman e Convidados é um ensaio musical e visual que marca época na produção contemporânea. Luiz Melodia, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Leila Pinheiro. Caetano Veloso, Lirinha, Milton Nascimento, Leny Andrade e o grande chorão Joel Nascimento , ao lado de Leo Gandelman, são as grandes estrelas deste DVD que aposta no bom gosto para conquistar o público. "Em 2006, quando terminei meu projeto com a obra de Radamés Gnatalli, eu já tinha esta idéia de fazer um trabalho voltado para o samba-canção, para a nossa balada. Para um músico, a balada é um momento muito especial, é quando ele melhor consegue expressar idéias e sentimentos com profundidade. Para o público também, que pode relaxar e refletir com tempo.", diz Leo, que fez a Direção Artística e dividiu a produção musical e os arranjos com David Feldman. Todo gravado no próprio estúdio de Leo, "Sabe Você" tem um repertório recheado de tesouros, e cada intérprete valorizou intensamente sua escolha. Leo, à frente de seu grupo, abre a trilha com "Chuva" (Durval Ferreira e Pedro Caetano). Em seguida é a vez de Luiz Melodia brilhar em "Aos Pés da Cruz" (Marino Pinto e Zé da Zilda). O perfeccionista Ney Matogrosso borda uma impecável "Pra Machucar Meu Coração" (Ary Barroso). Joel Nascimento traz seu precioso instrumento para a valsa "Sensível" (Pixinguinha), e Chico Buarque explora novas possibilidades melódicas em "Futuros Amantes" de sua autoria. "Minha música já foi interpretada de muitas maneiras", diz Chico, "e o Leo deu uma nova roupagem a ela". A direção de fotografia, de Lula Carvalho, optou pelo preto e branco para acentuar o clima cool, introspectivo, além de explorar belíssimas imagens noturnas do Rio de Janeiro, como a que abre o DVD: uma visão maravilhosa de um avião decolando do Aeroporto Santos Dumont. Depoimentos dos artistas, detalhes dos encontros, imagens pouco usuais em estúdio, tudo isso costura de maneira quase imperceptível este excepcional trabalho. Produzido em parceria por Leo e a Urca Filmes, Sabe Você, o DVD, é dirigido por Felipe Nepomuceno e Renato Martins. "Coração Vagabundo" (Caetano Veloso), ganha novas cores na interpretação de Leila Pinheiro, enquanto o próprio Caetano reinventa "Chove Lá Fora", uma das obras-primas de Tito Madi. "Trabalhei em muitos dos discos e shows destes artistas", lembra Leo, "e a presença deles em "Sabe Você" não deixa de ser o reconhecimento a um músico que há mais de 30 anos está com eles nos palcos e estúdios". Lirinha, cantor do grupo Cordel do Fogo Encantado, faz uma expressiva participação no DVD em "Só Por Amor" (Baden Powell), com direito a um soneto de Vinicius de Moraes. No contraponto, a impressionante presença de Milton Nascimento, que elegeu "Por Causa de Você" (Tom Jobim e Dolores Duran) e definiu com perfeição o que é uma balada: "É o nosso coração posto para fora". A Leny Andrade coube a honra de interpretar a faixa-título "Sabe Você" (Carlos Lyra), com acento bem jazzístico. Leo evoca Radamés Gnatalli - "Amargura" - para encerrar o belíssimo repertório. David Feldman (piano), Lula Galvão (guitarra e violão), André Vasconcellos (baixo), Allen Pontes (bateria) e Sidinho Moreira (percussão) formam o grupo que seguiu Leo Gandelman (sax soprano, alto e tenor) nesta viagem pelo universo mais sensível de nossa música. Ao se dar conta do resultado final do trabalho, Leo só tem uma expressão para registrar sua felicidade: "Receber o carinho e a amizade de todos os convidados e participantes foi para mim a maior emoção ao realizar este trabalho. Assim, realmente vale a pena sonhar!". É bom lembrar que Sabe Você é o trabalho comemorativo dos 21 anos de carreira solo de Leo Gandelman, que já vendeu mais de 500 mil discos e participou de gravações registradas em mais de 800 CDs do mais diversos artistas, gêneros e estilos. "Sabe Você" também está disponível em CD, com o mesmo repertório, com outra ordem e seleção de faixas.
Radamés e o Sax Um dos instrumentistas mais populares do país recria obras do maestro para sopro, no ano de seu centenário. CD tem participação de Zélia Duncan Radamés Gnattali (Porto Alegre 1906/Rio 1988) foi o grande modernizador da música brasileira no século XX. De formação clássica, se encantou na juventude pelo choro e mais tarde foi buscar no jazz, elementos que o ajudassem em suas inovações. Nesse percurso, ele que era uma pianista maiúsculo, foi buscando instrumentos adequados às suas idéias renovadoras. O saxofone foi um deles e em colaboração com alguns craques do instrumento – Luis Americano, Zé Bodega, Sandoval Dias e Paulo Moura - o compositor desenhou uma linguagem moderna para o sax brasileiro. "Radamés e o Sax" resume essas experiências e seu repertório pode ser dividido em três grupos. O primeiro é de peças para sax tenor criadas a partir da admiração de Gnattali por Zé Bodega (“Bate papo”) e Sandoval Dias (“Pé ante pé”, “Amigo Pedro”, “Brasiliana nº 7”). O primeiro é considerado o maior tenorista brasileiro e dele Radamés retratou um jeitão relaxado e cheio de bossa de tocar. Já Sandoval, sofria criticas de seus colegas de instrumento por não ligar para o jazz, nem cultivar seu sotaque. Foi justamente por isso que, além de alguns choros, Gnattali lhe dedicou a obra-prima que é a “Brasiliana nº 7”. Composta originalmente para sax tenor e piano, a Brasiliana aparece aqui em um arranjo encontrado por mim no arquivo de partituras da Rádio Nacional e que esperou quase meio século para ser gravado. Essa peça mistura virtuosismo, sensibilidade e balanço em proporções perfeitas. O segundo grupo de repertório são músicas para sax alto dedicadas a Luis Americano (“Serenata no Joá”) e Paulo Moura (“Valsa triste”), e mostram Radamés à vontade tanto em um choro tradicional dos anos 1930 quanto na série moderna de obras que criou para o disco "Paulo Moura interpreta Radamés Gnattali" de 1959. O terceiro grupo é de choros compostos para serem tocados por naipe de sax (Assim é melhor, A fumaça do meu cachimbo e Remexendo), nos quais a própria melodia é estruturada para funcionar bem nessa instrumentação. Uma delícia! A exceção desses grupos é o samba canção inédito "Saudade de alguém" com letra do craque Paulo César Pinheiro, espaço perfeito para aconversa dos timbres quentes do sax alto e da voz de Zélia Duncan. O núcleo de músicos que participou do disco é o Novo Quinteto, grupo que recria a sonoridade do lendário Quinteto Radamés e é composto por músicos que estudam o estilo há anos. Resumir décadas de evolução do sax brasileiro em um único trabalho só foi possível graças a dedicação apaixonada com que Leo se lançou a esse projeto. Como instrumentista, mergulhou no estilo, resgatou sonoridades e, sem nunca deixar de ser ele mesmo, passeou pela herança de lendas do instrumento, totalmente à vontade. Do sax soprano ao barítono, em solo ou em naipe, com o rigor erudito ou o balanço irresistível das gafieiras, Leo Gandelman mostrou mais uma vez o quanto é bom de sax, o quanto é bom de música e o quanto é brasileiro. Henrique Cazes
Lounjazz Simbiose Musical Música feita com prazer e que proporcione prazer e informação. Essa é a meta de Leo Gandelman em "Lounjazz", disco que produziu e lança pelo seu próprio selo, Saxsamba (com distribuição da Rob Digital). Como o título sugere, somos apresentados a uma simbiose da sonoridade lounge (relaxada e relaxante) com o espírito livre do jazz, a partir de um caldeirão no qual cabe samba, bossa nova, choro e demais gêneros devidamente manipulados pelo saxofonista, compositor e arranjador. O jazz e a música popular brasileira - duas correntes mestiças por natureza, que, na essência, nunca primaram por pureza alguma, e sim se fortificaram a partir da assimilação de diferentes ritmos - têm sido os pilares do trabalho de Leo Gandelman. "Lounjazz" abre novas trilhas e a biografia do músico mostra que ele tem brevê para esses vôos. À formação clássica (filho de uma pianista clássica e de um maestro, aos 15 anos já era flautista da Orquestra Sinfônica Brasileira), somou os estudos na Berklee College of Music e, a partir dos anos 80, o trabalho nos estúdios nos palcos com os principais nomes da música brasileira. Sua carreira solo, iniciada em 1987 no disco "Leo Gandelman", caracterizou-se por um instrumental que apostava tanto no lirismo quanto no balanço, no groove. Receita que foi bem recebida no mercado americano, onde Leo lançou muitos de seus discos, vivendo boa parte da década de 90 e início do século XXI em Nova York. Lá, além do trabalho solo, participou, ao lado de jazzmen como Bernard Purdie, Grant Greeen e Rueben Wilson, do grupo Masters of Groove - que Gandelman trouxe para apresentações no Brasil em 2002. "Lounjazz" é consolidação de muito do que foi contado acima. Trabalhos recentes de Leo, como "Brazilian soul" (1999) e "Pérolas negras" (1997), já acenavam com essa síntese musical, mas partiam principalmente de clássicos da canção popular. Agora, a exemplo de seus primeiros discos, o repertório é quase todo original, escrito pelo saxofonista em parcerias com o tecladista William Magalhães (um companheiro de viagem desde o fim dos anos 80) e o baterista Juliano Zanoni (jovem músico que Gandelman conheceu no fim de sua temporada em Nova York e que tem sido um parceiro constante desde então). Durante as gravações, instrumentistas como Alberto Continentino (baixo acústico), Nico Resende (violão), André Vasconcellos (baixo), Bernardo Bosisio (guitarra), Sidinho (percussão) e David Feldman (piano) também contribuíram muito para a concretização desse conceito. Na abertura, "Bossa rara", resume as intenções e a atmosfera do disco: novíssima bossa, na qual acústico e eletrônica somam a favor de uma sonoridade que junta suavidade e balanço. Em seguida, "Gavião" é um tema mais ritmado, ao sabor do samba, e mantém o clima - detalhe, Leo e Magalhães acabavam de compor essa música quando um gavião apareceu em frente à janela, oferecendo-se como título. Já "Dançarará", ganhou letra de Seu Jorge, feita no mesmo dia de sua gravação. Leo passou algumas idéias e o sambista pop traduziu em palavras o que o tema sugeria num criativo bate-bola no estúdio. Outra música-síntese, em "Lounjazz (Bem blues)" o sax alto de Gandelman passeia sinuoso pela marcante percussão (a eletrônica, programada por William Magalhães, e a "humana", de Sidinho). Já "Bari bossa" é o veículo para um ótimo solo de Leo no sax barítono, daí o título. "Sociedade desconhecida" é a faixa mais ousada do disco, com ecos que tangenciam tanto o tango no acordeom de Marcos Nimrichter quanto o free jazz nos solos de piano de David Feldman. O sax alto de Leo funciona como o fio condutor dessa viagem, dialogando e aproximando os extremos. "O iate" tem como ponto de partida o clássico "O barquinho". Leo criou uma nova composição a partir de uma frase da música de Roberto Menescal (e Ronaldo Bôscoli), que agora avança por outras praias. "Love total" é um dos temas que Leo escrevera para a trilha de "Estrela solitária", no caso, o tema de amor de Elza Soares e Garrincha. Botafoguense apaixonado, para compor a música do filme que conta a história do craque mais emblemático de seu time, Leo mergulhou na música da época, a partir de uma pesquisa na fabulosa coleção de discos do escritor Ruy Castro. Além dessa pesquisa, os sons do período sempre acompanharam Leo. Seu pai, Henrique Gandelman, manteve no início dos anos 60 um selo, Plaza, pioneiro na fusão do samba com o jazz, que lançou discos como "Saxsambando" - inspiração também para o nome do selo criado agora por Leo. Nas recriações de "Lounjazz", originais também são as abordagens, como a para "Tico tico lounge", que traz a quase centenária "Tico-tico no fubá" (Zequinha de Abreu) para as pistas de dança, sem abrir mão da brejeirice desse choro. Ou então reafirmar a contemporaneidade dos afros-sambas de Baden Powell (e Vinicius de Moraes) numa versão pulsante de "Canto de Ossanha" (atenção para o solo fluente de Leo no saxofone tenor). Também corre por aí o belo samba-canção "Inquietação", de Ary Barroso, com participação de Zélia Duncan, faixa que entra como bônus no CD. A instrumentação, um quarteto básico e arrasador, com Zanoni na bateria, Continentino no baixo acústico, Feldman no piano e Leo Gandelman no sax soprano, é também uma homenagem ao saxofonista John Coltrane e seu clássico disco com o cantor Johnny Hartman. O resultado, como em outro clássico de Ary, é luxo só, cool e profundo. Para fechar o disco, outra faixa-bônus, o remix de "Dançarará". "Dançarará remix", "Tico tico lounge" e "Canto de Ossanha" também ganharam uma pequena tiragem em vinil, que será distribuída a DJs por Leo Gandelman. Para as pistas, os lounges e as mentes, "Lounjazz" é um irresistível bilhete para uma bela viagem musical. Antonio Carlos Miguel
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